13 de janeiro de 2015

Batman Cavaleiro das trevas: A filosofia e o desenvolvimento humano por trás da trilogia de Christopher Nolan


Olá amigos, quanto tempo, não é? O tema de hoje é sobre a trilogia de Batman do Christopher Nolan, portanto essa postagem contém diálogos e trechos do filme, então se você não assistiu e não gosta de spoilers não recomendo ler esse texto. Porém se você viu e gostou, leia e dê a sua opinião.





                Que o cavaleiro das trevas está entre os heróis mais admirados no mundo do entretenimento, ninguém tem dúvidas, porém a trilogia de Christopher Nolan traz muito mais que um simples combate entre o bem e o mal num filme de ação. Além da incrível arte e elenco dos filmes, o diretor impulsiona questões profundas em seu roteiro sobre o desenvolvimento humano, a moral e a ética do próprio Batman.

                A princípio, em Batman Begins, Nolan introduz a questão do medo no desenvolvimento humano psicológico do ainda menino, Bruce Wayne. Se você se recorda meu caro leitor, Bruce cria um medo terrível de morcegos após cair em uma caverna em seu próprio quintal. E com isso, o diretor já começa a trazer reflexões nos diálogos do filme. Ao identificar o trauma da criança, o Senhor Wayne o leva a refletir com a seguinte questão: “Sabe por que caímos?” A resposta é simples, “Para aprendermos a levantar”.

                Em sequência, o garoto se depara com talvez a maior dificuldade da sua vida até então, enfrentar a dor da perda prematura dos pais, porém é através dessa grande dor que futuramente ele se tornará mais que um herói, um humano, o maior justiceiro de todos os tempos.  O menino herdeiro de quase toda a cidade de Gotham é forçado pela própria vida a crescer, a lidar com seus traumas e medos, pois toda a riqueza e dinheiro que herdou, não podem comprar a vida de seus familiares, nem mesmo lhe trazer a paz de que necessita, não supre o vazio que tem por dentro.

                Bruce cresce e vai amadurecendo aos poucos quando se dispõe a mudar, a enfrentar seus medos e curar a sua dor. Ele passa por um treinamento físico e também mental e é através disso que ele se desperta para a “vida”, ou seja, descobre o que realmente quer fazer da sua existência. Ele entende que só vai superar sua dor e trazer um legado de justiça para a memória de seus pais e para si mesmo se ajudar a fazer de Gotham uma cidade melhor. Bruce se torna o cavaleiro das trevas, começa então a sua luta contra o crime.

                Veja meu caro tripulante, que até então Nolan traz para o filme um ser humano comum, apesar de muito rico, Bruce tem seus problemas psicológicos e sofre como qualquer outra pessoa, além disso, diferentemente de outros filmes de heróis, nesse não há elementos sobrenaturais. Batman é um ser humano aprendendo consigo mesmo a ser melhor, a se superar, e isso faz com que o telespectador se identifique totalmente com o homem morcego.   

                Há explicações racionais e emocionais para toda a trama, o que nos faz acreditar e confiar no Batman, até seu símbolo de morcego tem uma razão, no caso, seu maior medo. Christian Bale traz ao personagem muito mistério, muita angústia e também uma postura de galã bilionário, tudo ao mesmo tempo.

                Ao buscar por justiça, Batman começa enfrentar outras dificuldades no seu próprio desenvolvimento pessoal e também social. Agora, vidas de inocentes estão em jogo, inicia-se então a reflexão ética e moral do filme.  O cavaleiro começa a se questionar o que seria certo e errado, ou moralmente correto. Questões como matar ou não por justiça são introduzidas ao público. Até que ponto ele pode chegar para salvar a cidade de criminosos? Infringir ou não as leis? O que é correto ou não a se fazer?

                Ainda em Batman Begins, há uma cena que exemplifica a personalidade moral do homem morcego. Essa é quando Batman encontra seu inimigo Ra’s Al Ghul e tem a chance de matá-lo, contudo diante disso, o herói reflete e surpreende com a seguinte frase “Eu não vou matar você... mas também não tenho nenhuma obrigação de salvá-lo.” É possível perceber nesse diálogo que Batman segue sua conduta moral, mas não se obriga a seguir a ética da sociedade. Às vezes, é preciso descumprir algumas regras e leis para o bem vigorar e é por isso, que o cavaleiro das trevas é amado e odiado ao mesmo tempo.

                Posteriormente, em Batman o cavaleiro das trevas, a questão filosófica do bem contra o mal é mais explorada, isso porque a fama de Batman e seus feitos se espalham, atraindo com isso, inimigos para si, um deles é o coringa, o qual se auto intitula um agente do caos.

                Analisando no contexto filosófico, identificamos aqui a visão de Platão de bem e mal, em que Batman é um agente do bem, e isso é o que aproxima o ser da verdade, já o coringa seria o não ser, a ausência do bem. Entretanto, nessa vertente, o mal só existe devido à própria existência do bem, ou seja, os opostos se atraem.  Assim, Batman começa a se questionar sobre isso, se já não é hora de sua figura de herói “fora da lei” desaparecer e deixar a sociedade ter seu próprio cavaleiro branco, no caso, alguém sem mascaras e que use a ética para salvar a cidade. E é com esse contexto que temos um novo “mocinho”, o promotor público Harvey Dent.

                Bruce reflete sobre a sua vida pessoal e na conduta do Batman para a sociedade. Nolan traz também romance, a dualidade e a confusão para o herói e para o público, deveria Bruce aposentar o homem morcego e ser feliz com sua amiga de infância, Rachel? Ou continuar a defender a cidade por trás de sua máscara? Devemos mesmo sacrificar nossos sentimentos em prol de um bem maior?

                Como se a confusão toda em sua mente não bastasse, o clima esquenta para Batman e o coringa começa a agir, provocando o caos por toda a cidade o que leva o telespectador a refletir nos profundos diálogos do filme. Coringa acredita que Batman e ele são parecidos, e que a grande diferença entre os dois é que para o palhaço, o homem morcego segue um sistema e está preso as regras do sistema, enquanto ele tem a liberdade para ser o que quiser. 

                O coringa não luta por algo, não tem uma causa, o que ele pretende é mostrar a sua visão de realidade para Batman. De acordo com ele, a sociedade não merece clemência e ajuda, pois a moral e ética é uma piada ruim, o qual as pessoas se esquecem no primeiro sinal de problema. Nas palavras do próprio coringa para o Batman:

Coringa:_ Os idiotas da máfia querem você morto para a cidade voltar ao que era, mas eu sei a verdade, não tem volta! Você mudou tudo para sempre!

Batman: “_Então, porque quer me matar”?

Coringa:”_ Eu te matar? Eu não quero matar você! O que eu faria sem você? Voltar a matar mafiosos? Não, não! Eu preciso de você! Você me completa!

Batman: “_Você é um rato que mata por dinheiro!”

Coringa:"_ Não fale como um policial, você não é um e nem se quisesse ser! Para eles você é um louco, que nem eu. Precisam de você agora, mas quando não for útil, te expulsarão como a um leproso! A moral deles; a honra é uma piada ruim, se esquecem delas ao primeiro sinal de problema. As pessoas são tão boas quanto o mundo permite, eu vou lhe mostrar. Quando tudo isso acabar, essas tais pessoas civilizadas vão comer umas as outras. Eu não sou um monstro, eu só estou na vanguarda. Você tem várias regras e acha que elas vão salvar você."

Batman”_ Eu só tenho uma regra” (no caso é não matar)

Coringa: “_Então é ela que você vai ter que quebrar pra saber a verdade!”

Batman:" _Que é?

Coringa:_ O único jeito sensato de viver nesse mundo é não ter regras, e hoje você vai ter que quebrar a sua única regra."

                Veja que o coringa afirma que sua própria existência depende do Batman, por isso, deseja que o herói se liberte do sistema para se igualar a ele. E é nessas cenas finais que o coringa mostra para Batman que ele não pode ter controle sobre tudo, afinal o morcego não consegue salvar a sua amada Rachel, nem mesmo o promotor Harvey, pois esse se deixa levar pelo ódio e raiva e acaba por virar o vilão duas caras que no fim morre.

                Além de tudo isso, coringa nos faz refletir na nossa moral e honra como sociedade, como seres humanos, o que faríamos diante do caos? Seguiríamos as regras, ou lutaríamos para o nosso próprio sucesso, independente das consequências aos outros? Como anda nossa conduta moral diante do sistema capitalista vigente?

                Apesar de tentar mexer com o psicológico do Batman, o palhaço não obtém êxito em seu propósito, pois o herói não quebra sua única regra, ele se matem firme e não mata ninguém. E, sobretudo, matem a fé e a esperança para com as pessoas. “_Se um dia você perder a confiança em mim, eu quero que você continue confiando nas pessoas.

                Há outros elementos importantes na vida de Batman, como o seu mordomo Alfred, que na verdade é mais que um empregado, é sua única família, é alguém que sempre acreditou e teve fé no caráter de Bruce Wayne. Não é atoa que Alfred é o único herdeiro do homem morcego.  Também temos o comissário Gordon como uma figura importante, ele confia nas atitudes do cavaleiro, e temos ainda o ilustre Morgan Freeman como Lucius Fox, chefe de pesquisa e administrador dos empreendimentos Wayne. Percebe-se que até o cavaleiro das trevas precisa de amigos de confiança para seguir sua vida.

                Podemos concluir que a trilogia de Christopher Nolan é muito mais que uma mega produção do cinema, é mais que uma obra de arte, traz reflexões, traz aprendizado ao mesmo tempo que entretém. 

                Por fim, o que aprendemos com tudo isso? Que qualquer um de nós pode ser um Batman, contudo ainda assim teremos problemas em nossas vidas, porém é como resolveremos eles que nos tornará vilão ou herói de nossa própria jornada. Podemos ser melhores quando conseguirmos encarar nossos medos, quando aprendermos a cuidar do nosso físico e do mental, quando restauramos a nossa fé e acreditarmos numa sociedade melhor, quando aprendermos a cultivar amizades que acreditem em nós e em nosso potencial. Quando percebermos que dinheiro e fama não supre o vazio que temos por dentro.
     
                Obteremos êxito na vida quando tivermos foco diante do caos, quando não deixamos o sistema vigente nos moldar com seus preconceitos e padrões, quando as dificuldades forem enxergadas como oportunidades de crescermos. O filme nos mostra que todos nós estamos propensos a erros e a cair, mas é como você se levanta e o que faz para seguir em frente que determina quem você é. Percebemos, sobretudo, que o ser humano é muito complexo e está além do bem e do mal e que fazer o bem é circunstancial e relativo, por isso é necessário autoconhecimento e se colocar no lugar do próximo em todas as nossas ações, pois só assim faremos dessa sociedade uma sociedade melhor.

Agora que você já pode ser o Batman, o que está esperando? Vamos colocar um sorriso nesse rosto?

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